<font color=0094E>Tribuna do Congresso*</font>

Reformular as alianças sociais básicas da classe operária (II)

3 – O Partido tem uma boa formulação das alianças imediatas da classe operária, mas uma má formulação das suas alianças sociais básicas.
1.º – Porque a aliança com o campesinato, que caminha para se tornar residual, embora conserve actualidade e premência no âmbito da presente frente social anti-monopolista e da luta contra a política de direita, já não tem cabimento como aliança estrutural fundamental de longo alcance.
2.º – Porque não se contempla, pelo menos com a clareza devida, o sector social, do ponto de vista de classe, com maior crescimento na sociedade portuguesa: os assalariados não operários, as camadas intermédias assalariadas (que incluem a intelectualidade assalariada que não pertence à classe operária). O Partido tem falado de agregação, para referir a natural identificação, a coincidência de interesses fundamentais, a proximidade da situação material e o extenso entrosamento entre várias destas camadas e a classe operária (tornando mesmo difícil, se não impossível, a destrinça de classe de vários assalariados, que combinam funções produtivas e improdutivas de mais-valia). Isso é certo, mas torna ainda mais inapropriada uma formulação das alianças fundamentais que não refere, explicitamente e com toda a clareza, este enorme sector, do ponto de vista de classe, de cada vez maior representatividade e importância social.
3.º – Porque é particularmente obscura quando se refere à aliança com «outras camadas intermédias», sem esclarecer que camadas são estas, se são camadas intermédias assalariadas ou não assalariadas, se, no segundo caso, incluem só a pequena-burguesia ou também pequenos capitalistas. A formulação é tão imprecisa que quem fizer uma leitura minimal, considera apenas a aliança da classe operária com o campesinato e os intelectuais, excluindo cerca de 1/3 da sociedade, quem fizer uma leitura maximal, só deixa de fora a média e grande burguesia (e os seus auxiliares directos, ao todo 2,5% da população) e o lumpen.
4 – Quando falamos de intelectuais (que no sentido marxista inclui os quadros técnicos) nas alianças sociais básicas da classe operária, referimo-nos sobretudo à intelectualidade trabalhadora. Mas esta, na sua enormíssima maioria, está assalariada. Pertence, minoritariamente, à classe operária (mesmo que não o reconheça) ou, maioritariamente, às camadas intermédias assalariadas. Quer numa situação, quer noutra, fica na sua quase totalidade abrangida nos termos de uma aliança mais geral da classe operária com as camadas intermédias assalariadas.
5 – Têm-se agravado certas contradições no interior da classe operária e dificulta-se a formação da sua consciência de classe. Mais geralmente, agravam-se contradições no interior dos assalariados e dificulta-se a formação da sua consciência da identificação (ou convergência) dos seus interesses fundamentais com os da classe operária. É por isso que assegurar a unidade da classe operária e a unidade mais geral dos trabalhadores assalariados, que constituem mais de 80% da população, é a questão central, fundamental, da revolução portuguesa e da construção do socialismo no nosso país.
Da mesma forma que, durante muitos anos, formulámos uma só aliança, a aliança da classe operária com o campesinato, que pelo menos tinha o mérito da clareza, também agora se deve ter apenas uma aliança social básica (que inclui a aliança da classe operária com a intelectualidade trabalhadora) – «a aliança da classe operária com as camadas intermédias assalariadas». Com a precisão adicional de que se trata de «assegurar a unidade da classe operária e, mais geralmente, a de todos os trabalhadores assalariados».

Manuel Brotas (Lisboa)

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